quinta-feira, 3 de abril de 2008

E por falar em borboletas...

A Noiva Cadáver, de Tim Burton



A Noiva Cadáver é um filme de inúmeras qualidades: belíssimo, sensível, de humor sutil, com um visual irretocável que, pra mim, é uma expressão perfeita da atmosfera do século XIX. Mas o que me tocou especialmente e me fez escrever esse post foi a sua cena final, inesquecível: o momento em que a protagonista finalmente consegue libertar sua alma, que se desfaz em milhares de borboletas. A imagem por si só é deslumbrante, mas pensar no que a motivou é que me deixa sem ar: em grego, o primeiro sentido da palavra psyké era "borboleta"; de uma associação já muito poética, derivou-se o sentido de "alma", "espírito".
Simplesmente não consigo deixar de me impressionar sempre com a extrema sensibilidade de Tim Burton ao resgatar uma metáfora tão antiga e tão tão bonita.

Engolindo borboletas...


A coisa especial que acontecia com aquele coelho era também especial com todos os coelhos do mundo. É que ele pensava essas algumas idéias com o nariz dele. O jeito de pensar as idéias dele era mexendo bem depressa o nariz. Tanto franzia e desfranzia o nariz que o nariz vivia cor-de-rosa. Quem olhasse podia achar que pensava sem parar. Não é verdade. Só o nariz dele é que era rápido, a cabeça não. E para conseguir cheirar uma só idéia, precisava franzir quinze mil vezes o nariz.

Pois bem. Um dia o nariz de Joãozinho - era assim que se chamava esse coelho - um dia o nariz de Joãozinho conseguiu farejar uma coisa tão maravilhosa que ele ficou bobo. De pura alegria, seu coração bateu tão depressa como se ele tivesse engolido muitas borboletas. (...)
(Clarice Lispector, O mistério do coelho pensante. Rio de Janeiro: Rocco, 1999)

segunda-feira, 17 de março de 2008

De tudo fica um pouco...

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Billie Holiday cantando:

Autumn in New York

Autumn in New York
Why does it seem so inviting
Autumn in New York
It spells the thrill of first-nighting

Glittering crowds and shimmering clouds
In canyons of steel
They're making me feel I'm home

It's Autumn in New York
That brings the promise of new love
Autumn in New York
Is often mingled with pain

Dreamers with empty hands
May sigh for exotic lands
It's Autumn in New York
It's good to live it again

Autumn in New York
The gleaming rooftops at sundown
Oh, Autumn in New York
It lifts you up when you run down

Yes, jaded roués and gay divorcés
Who lunch at the Ritz
Will tell you that it's divine

This Autumn in New York
Transforms the slums into Mayfair
Oh, Autumn in New York
You'll need no castles in Spain

Yes, lovers that bless the dark
On the benches in Central Park
Greet Autumn in New York
It's good to live it again

E mais uma coleção de memórias de pele, de cheiros, de sons, intraduzíveis por palavras ou imagens...


quinta-feira, 6 de março de 2008

De consolo, ao menos alguma poesia

Munch, Woman in the verandah

Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Drummond, Alguma Poesia



domingo, 23 de dezembro de 2007

Closer, 2005

Alguns dos filmes que vejo me impressionam de tal forma que acabam entrando pra minha mitologia pessoal - filmes que me explicam o mundo, que lhe dão sentido, que voltam de tempos em tempos querendo me dizer alguma coisa. Closer é um deles.
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Já foi muito impressionante da primeira vez em que o vi, em 2005, num momento da minha vida em que era impossível não me identificar (de fato, o mal-estar provocado pelo filme talvez tenha mesmo interferido na minha própria trama...). Mas o interessante é que, em diversas outras situações, Closer me serviu e ainda me serve de intertexto, de matéria para "ruminar" e para tentar desatar alguns nós das minhas relações afetivas/amorosas.
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Na época de seu lançamento, li uma crítica - do Contardo Calligaris, da Folha - que também acabou me marcando bastante. Acho que ele faz algumas reflexões muito pertinentes, não só acerca do filme, mas também acerca dessa maluquice que são os relacionamentos amorosos. Pra mim, é especialmente feliz o item 5.
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Eis o texto:
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"Closer - Perto Demais": por que somos infelizes em amor?
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Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas "Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais.
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O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.

Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais".

1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão?

Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).

O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?

Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.

Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.

Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.

2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.

Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.

A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar - não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.

Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme.

Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.

3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um
jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.

Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.

4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de
dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.

5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa.

Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?

O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.

Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

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Amor:
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Um lance de dados jamais abolirá o acaso.
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Silêncio, é madrugada!

Adoniran Barbosa

Em homenagem ao dia do Samba, que foi ontem, esta música (do moço aí em cima) que entrou para o repertório das minhas favoritas assim que a conheci:

No Morro da Casa Verde
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Silêncio, é madrugada.
No morro da casa verde
A raça dorme em paz
E lá embaixo
Meus colegas de maloca
Quando começa a sambá não pára mais
Silêncio!

Valdir, vai buscar o tambor
Laércio, traz o agogô
Que o samba na casa verde enfezou!
Silêncio!